sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Good Of War:livro 1-capitulo 1


Boa leitura
Muitos
Reconhecimentos
uitas pessoas trabalharam árdua e longamente neste livro. William Weissbaum, da Sony, nos proveu
de soluções precisas para problemas narrativos, bem como de conselhos astutos durante todo o
processo. O conhecimento de games e a sagacidade de Marianne Krawczyk foram muito apreciados.
Tricia Pasternak foi a melhor editora de todos os tempos. Raven Van Helsing nos ajudou de maneira
que nem imaginávamos, com o YouTube. Por último, obrigado ao meu agente, Howard Morhaim, e ao
meu intrépido coautor, Matthew Stover, por me dar a chance de ajudar em um projeto tão grandioso.
Robert E. Vardeman

Prólogo
A borda de um penhasco sem nome, ele põe-se de pé: uma estátua de mármore travertino, pálida como
as nuvens do céu. Ele vê que não há cores na vida, nem nos cortes escarlates das suas tatuagens, nem
nos retalhos apodrecidos de seus pulsos, onde as correntes rasgaram sua carne. Seus olhos são pretos
como a tempestade agitada que marca o Egeu abaixo, que termina com a espuma que se aferventa nas
rochas acidentadas.
Cinzas, somente cinzas, desespero, e o chicotear da chuva invernal: essas são suas recompensas por
dez anos de serviço aos deuses. Cinzas e putrefação e decadência, uma morte solitária e fria.
Seu único sonho agora é o esquecimento.
Ele já foi chamado de Fantasma de Esparta. Ele já foi chamado de Punho de Ares e de Campeão de
Atena. Ele foi chamado de guerreiro. Um assassino. Um monstro.
Ele foi todas essas coisas. E nenhuma delas.
Seu nome é Kratos, e ele sabe quem são os verdadeiros monstros.
Seus braços pendem, suas vastas linhas de músculos fortes e entrelaçados são inúteis agora. Suas
mãos trazem calos endurecidos não somente pela espada e pela lança espartanas, mas pelas Lâminas
do Caos, pelo Tridente de Poseidon e mesmo pelo lendário Relâmpago de Zeus. Essas mãos tiraram
incontáveis vidas, mas agora elas não têm armas para empunhar. Essas mãos não mais se fechariam ou
cerrariam em punhos. Tudo o que podem sentir é o gotejar de sangue e pus de seus pulsos dilacerados.
Seus punhos e antebraços são os verdadeiros símbolos de seu serviço aos deuses. A maltrapilha e
descascada carne tremula ao vento cruel, tornando-se enegrecida de podridão; até os ossos padecem
pelas cicatrizes deixadas pelas correntes que uma vez fundiram-se ali: as correntes das Lâminas do
Caos. Essas amarras já não existiam mais, arrancadas pelo mesmo deus que se impôs sobre ele.
Aquelas correntes uniam as lâminas a ele, e ele às lâminas; aquelas amarras eram os vínculos que o
algemavam a serviço dos deuses.
Mas o trabalho havia acabado. As correntes se foram, e as lâminas com elas.
Agora ele não tinha nada. Não era nada. De tudo o que não o abandonara, ele se livrou.
Sem amigos – ele é temido e odiado pelo mundo conhecido, e nenhuma criatura viva pode olhá-lo
com amor ou mesmo com alguma fagulha de afeição. Sem inimigos – ele não tinha mais nenhum vivo
para matar. Sem família...
E esse, mesmo agora, é um lugar no seu coração que ele não se atreve a espiar.
E, finalmente, o último refúgio dos perdidos e solitários, os deuses...
Os deuses fizeram um escárnio de sua vida. Tomaram-no, moldaram-no, transformaram-no em um
homem que não suportava mais ser. Agora, no final, ele não consegue nem se enfurecer.
“Os deuses do Olimpo me abandonaram.”
Ele pisa nos últimos centímetros do penhasco, suas sandálias raspam no cascalho da beirada
quebradiça. Trezentos metros abaixo, trapos sujos de nuvens giravam e trançavam uma malha de
névoa entre ele e as pedras pontiagudas banhadas pelo mar Egeu. Uma malha? Ele sacode a cabeça.
Uma malha? Antes uma mortalha.
Ele fez mais do que qualquer mortal poderia ter feito. Ele completou proezas que nem mesmo os
deuses poderiam igualar. Mas nada apagava a sua dor. O passado do qual ele não pudera escapar trazia
a agonia e a loucura como seus únicos companheiros.
“Agora não há esperança.”
Não há esperança neste mundo – mas no próximo, dentro das bordas do poderoso Estige, que faz
fronteira com o Hades, onde corre o rio Lete. Um esboço da água negra que, dizem, apaga a memória
de uma existência que deixou uma sombra para trás, e o espírito vagueia para sempre, sem nome, sem
casa...
Sem passado.
Esse sonho o impulsiona a tomar um final e fatal passo, que o empurra para o meio das nuvens que
despedaçam-se em volta dele, enquanto ele cai. As rochas carcomidas pelo mar se materializam,
ganhando solidez e tamanho, e correndo para esmagar sua vida.
O impacto engole tudo o que ele foi, tudo o que ele é, tudo o que ele fez e tudo o que foi feito a ele,
em uma explosão estilhaçada de noite.
* * *
A DEUSA ATENA se postou em armadura completa defronte a seu espelho de bronze polido, encaixou
uma flecha em seu arco e retesou a corda vagarosamente. Ela olhou todos os seus movimentos no
espelho, para verificar sua postura. Atena ergueu seu cotovelo direito levemente. Qualquer desvio no
ângulo faria a flecha ser disparada erroneamente. Ela buscava perfeição em todas as coisas, como
convinha à deusa guerreira. Ela segurou a corda e tensionou-a, sentindo os músculos nos seus braços e
ombros se distenderem. A sensação a perpassou e a tornou consciente não somente dela mesma, mas
de tudo o que a circundava. Uma meia-volta, observada no espelho, uma pequena correção em sua
postura, e ela mirou a flecha através de sua câmara em uma tapeçaria enorme que mostrava a Queda
de Troia. A flecha deslizou dos seus dedos e voou direta e certeira para afundar-se na figura
entrelaçada de Páris.
“Que herói cheio de falhas”, meditou. Ela não havia feito uma escolha tão pobre. Ela arriscou muito
porque o destino do Olimpo suspendeu-se de seu equilíbrio, quando seu irmão Ares ficou fora de
controle. Será que Kratos experienciou um momento de hesitação pouco antes de a flecha voar de seu
arco? Dúvida? Segurança? Atipicamente, ela sentiu uma estocada de pânico. Será que todas as suas
maquinações serviram para nada, arrancando os serviços de Kratos das mãos de Ares para si, em um
ardil engenhoso?
Um pequeno sopro de ar a fez girar vertiginosamente, outra flecha ajustada ao arco, e então
enrijeceu-se até que o arco dourado gemesse com a tensão. Ela ponderou suas ações, depois
lentamente relaxou sua tração na corda, a flecha dispersou-se.
Espreguiçando-se seminu em seu sofá, de uma nuvem de vinho tinto, sem a menor expressão de
vergonha, estava um jovem de beleza atordoante. Seu sorriso charmoso e malicioso não titubeava por
ter uma flecha apontada à sua testa.
– Ótimo vê-la – ele disse. – Celebrando a sua vitória, não é? Você sabe o que faz esta ocasião
realmente especial? Derramar essa sua virgindade perpétua. Não pareça tão solene. Não seja tão
solene. Vamos explorar esse território, sem travas. Sou um explorador versado e posso lhe mostrar o
caminho por rumos não familiares.
– Hermes – ela disse entre dentes. – Não o adverti sobre me espionar em minha câmara?
– Estou certo que sim – o Mensageiro dos Deuses disse indolentemente. Ele esfregou suas costas
despidas no sofá, remexendo-se sinuosamente, com prazer.
– Ah, maravilhoso. Estava com uma coceira. Na verdade, querida irmã, há outra coceira, uma com
que você pode me ajudar, o que é justo, já que você é sua inspiração.
– Sou? – O rosto de Atena poderia ser esculpido em mármore. – Devo coçá-lo com a minha espada?
O arco em seu punho desapareceu, substituído por uma espada afiada.
Hermes deixou seu peso recair sobre o sofá. Ele entrelaçou seus dedos por trás de sua cabeça e falou
com emoção para os céus do Olimpo:
– Para sempre fitando aquilo que não posso tocar – suspirou. – Tais cruéis destinos deveriam ser
reservados somente para os mortais.
Atena aprendeu com séculos de experiência que Hermes era tão intoxicado com seu próprio charme
que, quando começava a flertar, a única maneira de evitá-lo era mudar o rumo da conversa. Ela usou
sua espada para apontar para as sandálias dele.
– Você está usando suas asas. Esta é uma mensagem oficial?
– Oficial? Ah, não, não, Zeus está por aí, fazendo... algo – ele sorriu maliciosamente. – Muito
provavelmente alguém. Outra garota mortal, certamente. Só as Moiras sabem. Realmente, eu não
posso adivinhar o que ele vê nas mulheres mortais, quando qualquer deus normal sacrificaria uma
parte privada imortal, ou duas, pela chance de passar pela cinta de Hera.
– A mensagem – disse Atena. – Sua desculpa para invadir minha câmara?
– Ah, existe uma mensagem.
Ele materializou seu caduceu e o acenou para ela.
– Mesmo. Vê? Eu tenho a varinha.
– Sua beleza lhe empresta a impressão de charme. Seu comportamento a dissipa.
– Oh, eu suponho que isso tenha sido um chiste. Foi, não foi? Eu pergunto, cara virgem da guerra,
pois de outra forma não o poderia decifrar.
– Então me permita responder com um questionamento meu. Essa mensagem que traz é de tanta
importância que eu não deveria matá-lo por me agravar?
– Vá, por favor. A palavra de nosso pai proíbe qualquer deus de assassinar outro... – sua voz se
arrastou como se achasse algo inteiramente desconfortável no olhar frio e cinzento da deusa.
– Atena, minha cara irmã, você sabe, sou perfeitamente inofensivo, mesmo.
– Isso é o que venho me dizendo. Até agora.
– Só estava tentando me divertir um pouco. Um montante bem pequenino. Uma provocaçãozinha
com minha irmã favorita. Anime-se, que tal? Distraia-se de... bem, você sabe.
– Sim, bem sei. E você não deveria esquecer tampouco.
Ela vislumbrou atrás de Hermes uma penteadeira, onde jazia um ornamento de ouro, encrustado
com pedras preciosas. Mais um badulaque feito por um artesão ambicioso da cidade como uma
oferenda de sacrifício a ela. Era benfeito, para o trabalho de um mortal. Ela achava que poderia até
responder às preces dele, se se incomodasse de lembrar qual era seu nome. Sua preocupação com Ares
a roubou dos seus pensamentos para com os mortais que confiavam nela, mesmo em suas mortes. Isso
deveria mudar logo, para reparar mais do que construções desintegradas.
– E, bem, eu realmente peço desculpas por espionar. De todas as deusas do Olimpo, você é a
verdadeiramente mais bela. Sua postura era elegante – não, perfeita, com o arco curvado e a corda
tensa. Era uma visão de se contemplar. Qualquer adversário estremeceria, assim como qualquer aliado
se mobilizaria à sua causa.
Hermes ergueu-se do sofá, alongando seus músculos de modo calculado, enfatizando seu físico
esbelto e jovial.
– Mas deve admitir: entre os deuses, eu sou o mais bonito.
– Se você fosse metade do homem que pensa ser, você poderia, deveras, exceder o sol em brilho.
– Vê? Nenhum se compara a mim.
– Gostaria de ouvi-lo falar assim na frente de Apolo.
Hermes balançou a cabeça arrogantemente.
– Ah, claro, ele é bonito o suficiente, mas é um tanto entediante!
– É melhor que as próximas palavras de seus lábios digam respeito a sua mensagem.
Ela se inclinou e cutucou Hermes levemente, no peito, com a ponta de sua espada.
– Você viu recentemente, acredito, as consequências de me deixar irritada.
O Mensageiro dos Deuses olhou para baixo, para a lâmina contra as suas costelas, e depois de volta
para os olhos cinzentos e resolutos da Deusa da Guerra. Ele ergueu-se, adequou-se, ajustando sua
clâmide com exagerada dignidade, e disse em uma voz de clarim:
– É seu mortal de estimação.
– Kratos? – ela franziu a testa.
Zeus havia dito que ele mesmo cuidaria de Kratos até depois do memorial.
– O que há com ele?
– Bem, achei que gostaria de saber, em vista de toda a assistência que lhe deu e do zelo que
ocasionalmente sente por ele...
– Hermes.
Ele se encolheu levemente.
– Sim, sim. Aqui: testemunhe.
Ele ergueu seu caduceu e o apontou. No ar entre eles, a imagem de uma montanha se amoldou, alta
além da imaginação, e um penhasco, impossivelmente absoluto, impossivelmente alto acima da
explosão aquática do Egeu. À margem desse penhasco, Kratos parou e pareceu falar, ainda que não
houvesse ninguém para escutar.
– Seu bicho de estimação escolheu um perigoso caminho para trilhar. Esse o levará ao Hades.
Atena sentiu tornar-se pálida.
– Ele quer tirar sua própria vida?
– É o que parece.
– Ele não pode!
Que mortal desobediente! E onde estava Zeus? Não tomando conta de Kratos, obviamente – ou ele
disse, agora ela ponderava, que estaria observando de longe o espartano? O que seria algo totalmente
diferente.
Enquanto sua mente corria, ordenando todas as possibilidades e improbabilidades, o Kratos da
imagem inclinou-se para frente e levantou o pé do penhasco para o ar vazio... e caiu. Simplesmente
caiu.
Sem esforço. Sem grito. Sem pedido de ajuda. Ele mergulhou de cabeça para a morte nas rochas
abaixo, seu rosto era só calmaria.
– Você não previu nada disso? – Hermes sorriu com desdém. – Não é você a suposta Deusa do
Prenúncio?
Quando ela voltou seu olhar para ele, ele abafou o sorriso com uma tosse.
– Da próxima vez que nos encontrarmos – ela disse, baixa e mortalmente –, veremos qual será meu
presságio para você.
– Eu, ahn... estava apenas brincando – ele engoliu seco. – Só brincando...
– E é por isso que ainda não achei necessário machucá-lo. Ainda.
Sua espada cortou o ar defronte ao nariz de Hermes. A seu crédito, ele não se encolheu. Muito.
Ela se recompôs e, com um espasmo de vontade, irrompeu da sua câmara, deixando Hermes
boquiaberto atrás dela. Na velocidade do pensamento, Atena desceu do Monte Olimpo para o
penhasco. Ela apareceu enquanto Kratos se arremessava pelas nuvens maltrapilhas abaixo.
O Mensageiro estava certo. Contudo, ela não tinha ideia de que esse seria o final da história de
Kratos. Como ela pôde ter sido tão cega? Como Zeus pôde deixar isso acontecer? Mais importante:
como Kratos pôde ser tão desobediente?
“O Túmulo dos Navios”, ela pensou. Foi onde a queda de Kratos realmente começou. Tinha de ser.
“O Túmulo dos Navios no mar Egeu...”
O
Um
navio inteiro rangeu e tremeu, balançando com as rajadas de vento invernal, como se tivesse atingido
um baixio no mais profundo alcance do Egeu. Kratos levou os braços em torno da estátua de Atena na
proa do seu navio golpeado, os lábios descascando por conta do grunhido animal dos seus dentes.
Acima, no mastro principal, a última de suas velas quadrangulares partiu com o vendaval como em
uma detonação de um raio próximo. Um grande bando de criaturas imundas e macilentas, como
mulheres asquerosas com asas de morcego, pairou sobre o mastro, gritando com raiva e sede do
sangue dos homens.
– Harpias – Kratos grunhiu. Ele odiava harpias.
Um par de monstros alados guinchava mais alto que o uivo do vento, enquanto avançava para cortar
a vela com suas presas manchadas de sangue. A vela ribombou mais uma vez e finalmente se
despedaçou, caindo sobre o convés e estapeando algumas das harpias no ar. Uma delas desapareceu na
tempestade; outra conseguiu se safar, emaranhando suas garras afiadas violentamente no cabelo de um
remador. Ela arrastou o desafortunado marinheiro, que gritava e se debatia pelos céus, retorcendo-se
para cravar suas presas no pescoço dele e banqueteando-se com seu sangue, que foi derramado em
uma ducha violenta.
A harpia percebeu que Kratos a observava e gritou sua eterna fúria. Ela arrancou a cabeça do
marinheiro e atirou-a contra Kratos; quando ele afastou o pavoroso míssil com um golpe desdenhoso,
ela lançou o corpo do remador com força suficiente para matar um homem comum.
Seu alvo, contudo, não era nada que assemelhasse o ordinário.
Kratos deslizou para o lado e agarrou o cinto de corda do marinheiro enquanto o cadáver
mergulhava. Um selvagem arranque estalou o cordão e enviou o corpo sobre a murada para o mar
revolto. Kratos calculou o mergulho da harpia, que investia contra ele como um falcão, com as garras
afiadas estendidas para arrancar seus olhos.
Kratos lançou as mãos instintivamente atrás de seus ombros, procurando as enormes gêmeas,
impiamente curvas e sobrenaturalmente afiadas, as espadas que se aninhavam em suas costas. Suas
armas símbolo, as Lâminas do Caos, forjadas pelo deus ferreiro Hefesto nas fornalhas do próprio
Hades. As correntes enroladas em seus punhos e queimadas em sua carne até se fundirem com cada
um de seus ossos – mas, no último instante, ele deixou as gêmeas onde estavam.
Uma harpia não era digna de que elas fossem sacadas.
Ele rompeu o cinto do marinheiro assassinado como um chicote. Este rodopiou para encontrar o
mergulho da harpia e lançar-se ao pescoço do monstro. Kratos pulou da estátua para o convés abaixo,
seu peso súbito arrancando a criatura dos céus. Ele a imobilizou no convés com uma sandália,
enquanto puxava a corda para cima com uma fração de sua força. Aquela fração foi o suficiente: a
cabeça da harpia rasgou-se do corpo e deslizou no ar.
Ele agarrou a cabeça com sua mão livre, balançou-a próximo ao timão, o rebanho de harpias
guinchando, e rugiu:
– Desçam até aqui. Vejam o que acontece!
Ele pontuou seu desafio atirando a cabeça decepada na harpia mais próxima, com precisão mortal e
força inacreditável. Acertou-a diretamente no rosto, cortando seu grito como o golpe de um machado.
Ela deu cambalhotas enquanto despencava do céu, chocando-se com a tempestade, três palmos a
bombordo.
Kratos apenas olhou fixamente. Matar aquelas criaturas vis não era nem divertido.
Sem desafio.
O olhar de Kratos se assentuou quando o temporal lhe apontou um vislumbre do navio mercante que
ele perseguia. A grande embarcação tinha duas velas içadas e estava se afastando, correndo a favor do
vento. Um outro instante lhe mostrou por que seu navio ficou para trás. Seus remadores acuaram com
medo das harpias, se encolhendo em qualquer canto que pudessem encontrar, abaixo dos seus bancos
ou protegidos pelo emaranhado dos remos. Com um rosnado, Kratos segurou um remador que estava
em pânico pela nuca e, com apenas uma das mãos, levantou o homem acima de sua cabeça.
– O único monstro que você deveria temer sou eu!
Um movimento rápido de seu pulso lançou o covarde às ondas sem esforço.
– Agora remem!
A tripulação sobrevivente aplicou-se aos remos com energia frenética. A única coisa que Kratos
odiava mais do que harpias era um covarde.
– E você! – ele sacudiu seu punho massivo para o timoneiro. – Se eu tiver que voltar aqui para
dirigir, eu faço com que você vire comida de harpia! Você tem o navio à vista?
Seu rugido gutural fez com que o timoneiro se encolhesse.
– Você tem?
– Um quarto de légua a estibordo – disse o timoneiro. – Mas ele ainda tem suas velas! Nós nunca
iremos alcançá-lo!
– Nós vamos alcançá-lo.
Kratos vinha perseguindo a embarcação mercante fazia dias. O outro capitão era astuto e um
marinheiro hábil. Ele havia tentado todos os truques que Kratos conhecia, e mesmo uns novos, mas, a
cada dia, a galé elegante de Kratos direcionava o navio mercante inelutavelmente para um perigo ao
qual nenhum barco poderia sobreviver: o Túmulo dos Navios.
Kratos sabia que sua presa iria ceder. Entrar naquele estreito maldito era o último erro que qualquer
capitão cometeria.
À frente, como rochas pontiagudas em meio ao estreito, adormeciam pedaços destroçados de
embarcações que, por infortúnio ou erro de cálculo, encontraram seu caminho para a sepultura. Não
era possível saber quantos poderia haver – centenas, talvez, ou milhares, elencados nas marés e suas
correntes traiçoeiras, triturando seus cascos, uns contra os outros, até que finalmente se partissem em
destroços lascados, ou enchessem de água suficiente para afundar. Mas mesmo isso não marcava o
final do perigo. Muitas das ruínas dos navios descansavam abaixo, no fundo do mar, e permaneciam
próximas à superfície do Egeu como recifes artificiais, espreitando para arrancar o casco de um navio
desavisado acima. Esses recifes nunca puderam ser mapeados, pois nenhum barco que entrou no
Túmulo jamais o deixou. Tantos marinheiros morreram ali que o próprio mar havia assumido um
cheiro fétido de carne podre.
Kratos assentiu consigo quando o navio mercante baixou suas velas e reverteu seus remos para a
virada. A fuga estava próxima, ou teria estado, em qualquer outra região do Egeu. Mas a embarcação
estava muito perto do Túmulo dos Navios. Mesmo quando o navio mercante começou a reverter o
curso, uma cabeça colossal levantou-se das profundezas e desabou no convés do navio; e seu vigoroso
pescoço enrolou-se no mastro, tentando quebrá-lo.
Sempre que o vento se acalmava por um momento, Kratos escutava claramente os gritos e brados de
guerra da tripulação do navio mercante, que freneticamente cortava o pescoço da Hidra com espadas
curtas e machados. Mais cabeças despontavam das profundezas do mar. Kratos sinalizou ao timoneiro
para seguir em frente, indo ao encontro deles. Não havia por que esperar que eles se libertassem;
estavam muito ocupados na luta com a Hidra para notar que estavam sendo puxados para dentro do
Túmulo.
Ao redor, flutuavam os abandonados e destruídos pedaços de embarcações, que ou não contaram
com a proteção dos deuses, ou portavam um destino de condenação. O barco mais próximo pelo qual
passaram claramente não chegara muito antes de Kratos e sua caça. Uma dúzia de marinheiros
estavam presos ao mastro – empalados por uma única e imensa lança. As harpias haviam pungido os
corpos. A maioria da tripulação era mero pedaço de carne, pendurados em esqueletos sangrentos, mas
o mais próximo ao mastro ainda estava vivo. O marinheiro avistou Kratos e começou a chutar
debilmente, estendendo suas mãos em um apelo silencioso por misericórdia.
Kratos estava mais interessado na imensa lança que o empalava – sua presença sugeria que um
ciclope poderia estar por perto. Ele bloqueou a visão do timoneiro, para que não visse o navio da
morte.
– Preste atenção em seu curso.
– O senhor Ares se opõe a nós – o marinheiro disse com a voz embargada. – As harpias – a Hidra –
essas são suas próprias criaturas! Todas elas. Você desafiaria o Deus da Guerra?
Kratos estapeou o timoneiro forte o suficiente para lançá-lo ao convés.
– O mercador tem água fresca. Precisamos pegá-lo antes que afunde, ou vamos todos morrer
engolindo o mar. Esqueça Ares. Preocupe-se com Poseidon.
Ele levantou o homem de volta aos seus pés e o postou no leme.
– E se Poseidon não o preocupa, lembre-se de mim.
Por dois dias eles estiveram sem água. Sua boca estava mais seca do que o Deserto das Almas
Perdidas, e sua língua havia inchado. Kratos teria negociado a água de bom grado, mas, antes de o
acordo ser realizado, o capitão do barco mercante teve um vislumbre dele e decidiu que o caminho
mais sábio era o de fugir como se todos os cães do Hades ladrassem em seus calcanhares. Kratos
ensinaria a esse capitão as consequências de tal sabedoria.
Ele cofiou sua barba curta e pontuda, removendo coágulos espessos de sangue – humano ou de
harpias, ele não sabia, nem se importava. Ele verificou seu corpo em busca de ferimentos; no calor da
batalha, um guerreiro pode ser mortalmente ferido e nem perceber. Sem achar nenhum, seus dedos
inconscientemente traçaram a tatuagem vermelha que percorria seu rosto e sua cabeça raspada, antes
de descer ao longo das costas. O vermelho contrastava nitidamente com o tom branco ósseo de sua
pele.
Sangue e morte. Aquelas eram as mercadorias de Kratos. Ninguém que já o tivesse visto em uma
luta, ninguém que tivesse escutado os contos de suas façanhas lendárias, poderia confundi-lo com
qualquer outro homem.
Outro impacto fez com que Kratos colidisse com seu timoneiro. O navio estremeceu e guinchou, e o
som agudo do choque ecoou. O marinheiro caiu no convés, e Kratos agarrou o leme – mas este
balançou livremente na sua mão.
– O leme! – o timoneiro engasgou. – O leme foi despedaçado.
Kratos soltou o leme inútil e espreitou por cima da popa. Uma das carcaças abandonadas dos recifes
artificiais lançara-se em sua galé como em um peixe – uma lança tão grossa quanto seu corpo foi
levada através do casco e dilacerou o leme inteiro, quando penetrou a popa de dentro para baixo.
– Remos a estibordo! Recuar! – Kratos bramiu. – Remos a bombordo! Puxem por suas vidas inúteis!
Com um grito que poderia triturar os dentes, a galé conseguiu escapar de vergar. Enquanto seu arco
balançou em direção do mercador que se debatia, Kratos ordenou que o barco virasse a estibordo a
toda velocidade. Ele girou e rosnou ao timoneiro:
– Marque a cadência! Rápido!
– Mas... mas estamos afundando!
– Marque! – Kratos voltou-se para os remadores. – O primeiro verme covarde que tirar suas mãos
do remo vai morrer onde estiver sentado!
A tripulação olhava para ele como se tivesse sido levado à loucura pelos deuses.
– Agora! Puxem!
Mesmo que a popa afundasse mais e mais dentro d’água, a galé emergia à frente. O barco mercante
estava a apenas duzentos passos de distância, e cento e cinquenta, e então...
Um gigantesco volume de água, impulsionado pelas contracorrentes traiçoeiras do Túmulo dos
Navios, saltou sobre metade da embarcação – e, em vez de se corrigir, desabou em cima de um casco
podre, que foi perfurado rapidamente. Seu navio não tinha nenhum lugar para ir, exceto para baixo.
– Quem puder, siga-me – Kratos disse à sua tripulação.
Se não pudessem, não valiam o trabalho de serem salvos.
Ele arqueou-se sobre o parapeito e aterrizou como um gato em uma tábua cheia de limo. Ele
derrapou ao longo dela, movimentando os braços para se equilibrar. O mar espumou entre as tábuas
irregulares à deriva, e cada onda jogava cascos abandonados uns contra os outros como moinhos de
madeira. Cair nessas águas seria morte certa.
Cinquenta metros à frente oscilava outro navio. Seu mastro havia sido decepado e, pela maneira que
as cracas incrustadas e as algas negras adornavam seu casco, o barco fora prisioneiro no Túmulo dos
Navios por muitos anos. Qualquer coisa que ainda flutuava era melhor do que sua galé, que se rendia
ao mar com um vasto som de sucção e com o coro de gritos dos marinheiros, lentos demais para
saltar.
Um momento depois, os únicos sons eram o das ondas se acidentando e o assobio fino do
abrandamento do vendaval. Andando rapidamente entre os restos quebrados dos navios que
pereceram, Kratos alcançou uma carcaça abandonada. A curva alta do casco viscoso parecia
impossível de ser escalada, mesmo para ele.
Fez uma pausa e olhou para trás para ver se alguém de sua tripulação o havia seguido. Apenas um
punhado evitou ser sugado com a galé – uma cabeça de Hidra emergiu das profundezas e atacou
brutalmente, assassinando mais marinheiros, cortando-os em metades sangrentas. Em silêncio, Kratos
assistiu enquanto eles morriam.
Ele estava acostumado a ficar sozinho.
A viga em que se equilibrava inesperadamente rolou por baixo dele. Sem hesitar, ele pulou, os dedos
arranhando a carcaça incrustada da corrente da âncora. Mariscos rasgavam seus dedos, mas ele apenas
resmungou e apertou os dedos ainda mais. Seus pés encontraram a curva do casco, e ele subiu com
cuidado, puxando-se pela corrente. Ele saltou para cima do convés.
Essa embarcação fora abandonada há anos. O mastro havia-se quebrado, deixando lascas irregulares,
agora cegas pela tempestade e pelas ondas. Ele se virou e olhou de volta para onde seu navio havia
estado. Ele não encontrou nada além de um aço acinzentado e uma espuma quase tão branca quanto o
tom cinzento de sua pele.
O fedor sombrio de decomposição foi o seu primeiro aviso. O segundo foi uma incandescência
súbita das correntes fundidas com os ossos de seus pulsos. Ares havia sido um mestre cruel; Kratos
odiava até mesmo pensar nele, exceto por um único ato. Ares havia unido seus braços às Lâminas do
Caos.
Os grilhões incorporados queimavam agora, como se estivessem pendurados em uma fogueira.
Chamas pingavam das lâminas em suas costas, mas mais uma vez ele não se preocupou em empunhálas.
Ele se virou e assumiu uma postura de combate, com as mãos largas prontas para agarrar e rasgar.
O cheiro pútrido ganhou força quando sua origem apareceu à vista.
A fonte eram três dos soldados de Ares – cadáveres em decomposição de legionários mortos-vivos.
Esses eram os únicos soldados que o Deus da Guerra podia agora comandar. Seus olhos ardiam em um
fogo verde e frio. Carnes em decomposição pendiam de seus ossos como trapos. Sem emitir um único
som, eles investiram contra Kratos.
Apesar de serem mortos-vivos, eles se moviam com uma velocidade sobrenatural. Um empurrou
uma lança em direção à sua cabeça, a fim de forçá-lo a esquivar-se, enquanto outro balançava uma
corrente em direção às suas pernas.
Kratos arrebatou a lança com ambas as mãos, dirigindo-a para baixo, para enredar a corrente, então
arremessou a lança e levou a mão às entranhas lodosas do legionário mais próximo, seus dedos
rasgando a carne putrefata para encontrar o osso ilíaco em seu interior. Kratos apertou com força
sobre-humana; quebrou o quadril do legionário, e a criatura caiu. Kratos se adiantou, sem olhar para
trás.
Quando o legionário com as correntes girou-as novamente, Kratos deixou que elas se envolvessem
em torno de seus braços. Ele não estava preocupado, ele tinha seus próprios grilhões.
Assim que o morto-vivo saltou contra ele, Kratos passou uma lâmina da corrente em torno de seu
pescoço. A contração de seus braços enormes arrancou a cabeça do legionário de seus ombros. Ele
despachou o terceiro com um simples golpe com o punho, esmagando seu crânio.
Ele procurou por mais criaturas para destruir, mas não viu nada. Sabia que não deveria
simplesmente acreditar que todos os monstros haviam desaparecido.
Kratos sabiamente usou o tempo livre para encontrar um caminho entre os barcos naufragados que
poderia levá-lo aos últimos cinquenta passos que o separavam do mercador.
Uma estátua de madeira flutuando a certa distância chamou sua atenção.
“Atena!” Ele havia disposto sua estátua a bordo de seu navio, na proa, como um tributo aos
trabalhos que ele desempenhou para os deuses nos últimos dez anos. Ele não tinha certeza se fora
auxiliado pelos deuses nas missões intermináveis ou se havia apenas sorte envolvida. Má sorte. Boa
sorte. Não importava. Ele tinha as lâminas.
A estátua não era mais do que um pedaço estúpido de madeira entalhada, não mais significativa do
que qualquer outro destroço ao longo do Túmulo dos Navios. Ou assim ele pensava. Agora, a Atena de
madeira boiava, pairando sobre as ondas, para cima e para baixo, e havia subido mais da metade do
caminho pela água e se inclinou na direção de um emaranhado de vigas flutuantes.
Um fragmento acidentado atrás de Kratos advertiu-o de que mais que a estátua de Atena havia se
livrado da sepultura de água. Ele saltou, mal conseguindo agarrar uma viga. Ele usou suas unhas para
se firmar pelo caminho – algo frio e liso deslizou por sua perna. Ele resmungou e puxou a viga com
mais força, raspando sua barriga sobre a madeira áspera. Ele levantou seus pés assim que a mão de um
morto-vivo espremeu seu tornozelo e puxou-o com violência.
Ele bateu na viga e usou o aperto do morto-vivo em sua perna como impulso, enquanto mudava de
curso e girava na viga, então mergulhou as mãos no mar. Os grilhões ferventes transformaram a água
em vapor e queimaram o legionário, de modo que ele se debateu violentamente e bateu em retirada,
sem puxar Kratos para a morte.
Kratos colocou-se de pé novamente. A pouco menos de dez metros de distância, a estátua de Atena
ainda balançava sobre as ondas. A estátua de madeira levantou-se quase livre da água e virou-se com
inconfundível urgência, inclinando-se como um ímã atraído pelo navio mercante.
Ele não precisou de outra dica. Saltou, atou-se, equilibrou-se, escorregou e deslizou em meio ao
emaranhado de destroços flutuantes em direção a uma embarcação naufragada que parecia estar
relativamente intacta. Alguns dos tripulantes do navio mercante deviam ter procurado refúgio lá,
fugindo do ataque da Hidra; tábuas de embarque, apoiadas na rampa do barco mercante, mediam
pequeno intervalo entre os navios. Se ele pudesse alcançar o barco afundado, poderia embarcar no
navio mercante com facilidade – contudo, antes que pudesse chegar à tábua, o mar explodiu diante
dele.
Das profundezas invisíveis ergueu-se uma enorme cabeça reptiliana, de olhos como escudos de fogo
e espadas reluzentes como dentes. Suas mandíbulas poderiam morder pedaços inteiros do mais
poderoso navio no mar Egeu, seus ouvidos espinhosos balançaram de forma mais ampla do que as
velas de um navio; suas narinas derramavam uma fumaça gélida sufocante. A cabeça ignorou os
navios atrás dela, olhando, em vez disso, para Kratos. Seu imenso pescoço arqueou, e seus olhos
brilharam, e urrou sobre o Fantasma de Esparta com um som demasiado poderoso para ser chamado
de ruído. O grito de trovão deixou Kratos de joelhos. Brevemente. Kratos ergueu-se. Enfim: algo que
valia a pena matar. Harpias haviam morrido pelas suas mãos nesse dia. A Hidra seria a próxima. Com
uma satisfação sombria, ele levou as mãos às costas e sacou as Lâminas do Caos.

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